Carta ao Pai, de Fraz Kafka (Tradução de Marcelo Backes, L&PM Pocket, 2004), bate e volta num tipo de relação entre filho e pai que não conseguiu ser resolvida. A mescla de admiração e raiva de Franz Kafka pelo pai, o comerciante Hermann Kafka, parece “atrofiar” a existência de Kafka filho.
Embora descreva em detalhes e coloque numa situação paradoxal a figura paterna, destacando-a por sua postura cativante de um lado e por suas atitudes repudiáveis de outro, Kafka filho insinua ser o principal responsável por esse embate com o pai.
Essa possível evidência se acentua justamente na não reação do filho diante das manifestações e posições paternas (segundo descrição de Kafka, seu pai, por exemplo, não valorizava as conquistas do filho e tratava os funcionários de forma rude). Tanto que ele toma para si a culpa e parece “absolver” o pai de quaisquer responsabilidades pela inconstância entre os dois.
Ao mesmo tempo, o escritor afirma que tudo nele, principalmente o processo educativo a que foi submetido, tem influência de Hermann, o pai. “O fato é que tuas medidas educativas acertavam o alvo; não me esquivei a nenhuma investida de tua parte; assim como sou [...], sou o resultado da tua educação e da minha obediência” (2004, p.36).
A Carta ao Pai (a qual não chegou ao destinatário) teve como fundamento não apenas expressar a mágoa que Kafka sentia por seu genitor como também revelar a sua indignação pela contrariedade de Hermann para com seu noivado com Julie Wohryzek. Talvez o medo flagrante que alimentou pelo pai e a ausência de coragem do escritor na hora de tomar suas decisões tenham uma motivação: a dificuldade de compreender a vida.
Uma incompreensão registrada com simplicidade e demasiada competência literária nessa obra que Kafka escreveu quando tinha 36 anos. “Eu tive, desde que consigo pensar, essa preocupação profunda com a afirmação espiritual da minha existência, a tal ponto que todo o resto me era indiferente” (2004, p. 71), frisa o autor, na oferta de uma leitura intrigante para quem está disposto a se jogar nas reflexões e nas divagações que a vida, com suas tantas metamorfoses, sugere.