A dor no peito é intensa. Uma agonia que só as lágrimas conseguem acalmar. Quando os pais moram longe, as visitas, em muitos casos, são raras e a hora do tchau vira suplício. Um replay da época da infância passa pela cabeça. O abraço do pai reforça a emoção. O beijo da mãe acelera os batimentos cardíacos. E o ombro do irmão veste-se de aconchego. Além da carga de carinho da família, há a dos demais parentes, vizinhos e amigos.
Um final de semana de passeio na casa de origem faz revirar as gavetas do tempo: revistar o passado, refletir o presente. Os álbuns antigos ajudam nessas tarefas. O nono que já se foi, o primo antes bebê hoje está adolescente. Na foto das bodas de ouro dos avôs, o retrato de quase toda a família. Aos poucos, velhos componentes vão desaparecendo e novos vão chegando. É o ciclo da existência.
Um final de semana de volta às raízes faz sentir o peso da saudade e o quanto ela interfere em nossas vidas. O cheirinho e o gosto do pudim feito pela mão materna. O churrasco que só as mãos paternas têm habilidade de preparar tão bem. A promessa de que da próxima vez não demorarei tantos meses para voltar persiste. A vontade de correr aos braços da mãe ou ao afago do pai e ali permanecer tenteia.
Mas é hora de colocar a bagagem no carro ou no ônibus e partir. Nesse instante, vem à lembrança o questionamento de Manoel de Barros no poema Sobre Importâncias.
"(...) Agora, hoje, eu vi um sabiá pousando na Cordilheira dos Andes. Achei o Sabiá mais importante do que a Cordilheira dos Andes. O pessoal falou: seu olhar é distorcido. Eu, por certo, não saberei medir a importância das coisas: alguém sabe?"
Vendo o rosto de meus familiares, percebi que não sei avaliar direito a importância das coisas. Diante deles, meu coração decretou: fica mais um pouco. Minha razão e obrigações, no entanto, disseram com ar de realismo: é preciso ir. De mala escorada aos pés, acenei. Com o coração partido e lágrimas resistindo a cair, segui viagem. Descobri, então, que há importâncias que as palavras ainda não conseguem traduzir. (16/10/2006)
As palavras me atraem. Nelas e em alguns olhares, vejo sentido para o prazer e para o conhecimento...
sábado, 10 de maio de 2008
Avalanche de marcas. Socorro!!!
Olho para um lado, vejo marcas. Olho para outro lado, vejo marcas. Mudo o ângulo e só marcas. Elas estão nas roupas, nos esportes, nos carros, nas cozinhas e restaurantes, nos produtos de limpeza, nos brinquedos, nos outdoors, nas cestas de lixo. É uma avalanche delas atormentando e seduzindo as pessoas. Por trás de tudo, a indústria da publicidade, do marketing, da mídia e das celebridades movimentam esse mercado. Estrategicamente, a primeira ação começa na infância, estágio em que a persuasão, o convencimento e a fidelização do consumidor se tornam mais fáceis.
- Quero um refrigerante - pede o menino ao dono da lanchonete.
- Tem de ser Coca-Cola - exige o pequeno referindo-se a um dos principais sucessos mundiais do setor.
- Mãe, você precisa comprar para mim a bolsa dos Rebeldes (ou RBD), a camisa da Hello Kitty, e a Barbie traje festa - reivindica a menina de cinco anos num gesto que virou febre entre tantas de sua idade.
- Cada vez mais cedo o imaginário infantil é cooptado e povoado por marcas e logos, os ícones do consumo - explica o doutor em Teologia e professor-pesquisador da Faculdade de Filosofia e Teologia da Universidade Católica de Goiás, Alberto da Silva Moreira.
As marcas, detalha ele em artigo sobre Cultura Midiática e Educação Infantil, viraram religião.
- Sem deveres nem castigos, a religião do consumo só promete recompensas. Por isso conta com a adesão entusiasta das crianças, pois a inteligência, a sofisticação e a interatividade embutidas na propaganda fascinam e envolvem pelo prazer que produzem - constata o teólogo.
Antes de alfabetizadas na escola, as crianças são alfabetizadas pelas marcas e submetidas a uma saturação simbólica sem precedentes. Isso pode influenciar atitudes nas fases da adolescência e adulta. O adolescente pede o tênis da onda, os jovens, as griffes do momento, e os mais velhos acabam se adaptando ao clima, confiantes de que tudo é reflexo da modernidade. A maior adesão vem das classes privilegiadas, mas as marcas também encantam classes menos abastadas. Afinal, estão em todo o canto numa ânsia de conquistar discípulos. Só espera-se que o fundamentalismo dessa atração não traga prejuízos sem volta à sociedade. Um olhar crítico de pais e educadores sobre o consumo excessivo cairia bem ainda mais se debatido de forma espontânea com a própria criança. (13/11/2006)
- Quero um refrigerante - pede o menino ao dono da lanchonete.
- Tem de ser Coca-Cola - exige o pequeno referindo-se a um dos principais sucessos mundiais do setor.
- Mãe, você precisa comprar para mim a bolsa dos Rebeldes (ou RBD), a camisa da Hello Kitty, e a Barbie traje festa - reivindica a menina de cinco anos num gesto que virou febre entre tantas de sua idade.
- Cada vez mais cedo o imaginário infantil é cooptado e povoado por marcas e logos, os ícones do consumo - explica o doutor em Teologia e professor-pesquisador da Faculdade de Filosofia e Teologia da Universidade Católica de Goiás, Alberto da Silva Moreira.
As marcas, detalha ele em artigo sobre Cultura Midiática e Educação Infantil, viraram religião.
- Sem deveres nem castigos, a religião do consumo só promete recompensas. Por isso conta com a adesão entusiasta das crianças, pois a inteligência, a sofisticação e a interatividade embutidas na propaganda fascinam e envolvem pelo prazer que produzem - constata o teólogo.
Antes de alfabetizadas na escola, as crianças são alfabetizadas pelas marcas e submetidas a uma saturação simbólica sem precedentes. Isso pode influenciar atitudes nas fases da adolescência e adulta. O adolescente pede o tênis da onda, os jovens, as griffes do momento, e os mais velhos acabam se adaptando ao clima, confiantes de que tudo é reflexo da modernidade. A maior adesão vem das classes privilegiadas, mas as marcas também encantam classes menos abastadas. Afinal, estão em todo o canto numa ânsia de conquistar discípulos. Só espera-se que o fundamentalismo dessa atração não traga prejuízos sem volta à sociedade. Um olhar crítico de pais e educadores sobre o consumo excessivo cairia bem ainda mais se debatido de forma espontânea com a própria criança. (13/11/2006)
Meus reais (R$) sob interesse
Não há vocábulo que consiga traduzir a minha revolta como cidadã brasileira e eleitora nesta última semana. Fiquei sabendo, assim como você deve ter ficado, que nossos deputados federais desejam um aumento salarial de 91,40%.
Eles querem que sua remuneração mensal simplesmente salte de R$ 12,8 mil para R$ 24,5 mil. Afronta, horror, terror, absurdo, abuso, fim da picada, escândalo... Se você encontrar uma palavra que consiga definir com maior precisão essa proposta descabida dos parlamentares brasileiros, por favor, me informe.
Estou me sentindo uma idiota ao saber dessa intenção que circula por Brasília e pelo país. Por isso, reservei uns minutos para fazer cálculos. Sabe quanto cada legislador federal receberá por ano se esse incremento salarial passar a valer a partir de 2007? Mais de 300 mil, contabilizando 12 meses + 13º salário. Multiplicados por 594 (513 deputados + 81 senadores, os quais recebem poucos reais a menos que os deputados federais), chegaremos próximo a R$ 190 milhões. Esse total corresponde a 35,5% do orçamento que a prefeitura de Caxias do Sul prevê gastar até o final deste ano em todas as unidades (Saúde, Educação, Obras, Cultura, Turismo, etc.) e serviços públicos municipais para atender aos 405 mil habitantes caxienses.
Uma remuneração mensal de R$ 24,5 mil equivale a 70 salários mínimos (o mínimo vale hoje R$ 350). Assim, se aprovarem a duplicação do crédito mensal que atualmente ganham os ocupantes das cadeiras no Congresso Nacional, terão o privilégio de obter, por ano, cerca de 910 salários mínimos. Sabe quando um cidadão comum receberá isso trabalhando honestamente, de sol a sol? Nunca.
É mole ou quer mais? Sim porque a história continua e fica mais séria quando percebo que todo esse dinheiro, teoricamente, me pertence e pertence a você. Portanto, deveria ser usado em benefício do interesse público.
Mas, só nos pertence no pensamento pois, na prática, ele serve a um público cheio de interesses. E assistir passivamente a isso é que me deixa ainda mais indignada! (27.11.2006)
Eles querem que sua remuneração mensal simplesmente salte de R$ 12,8 mil para R$ 24,5 mil. Afronta, horror, terror, absurdo, abuso, fim da picada, escândalo... Se você encontrar uma palavra que consiga definir com maior precisão essa proposta descabida dos parlamentares brasileiros, por favor, me informe.
Estou me sentindo uma idiota ao saber dessa intenção que circula por Brasília e pelo país. Por isso, reservei uns minutos para fazer cálculos. Sabe quanto cada legislador federal receberá por ano se esse incremento salarial passar a valer a partir de 2007? Mais de 300 mil, contabilizando 12 meses + 13º salário. Multiplicados por 594 (513 deputados + 81 senadores, os quais recebem poucos reais a menos que os deputados federais), chegaremos próximo a R$ 190 milhões. Esse total corresponde a 35,5% do orçamento que a prefeitura de Caxias do Sul prevê gastar até o final deste ano em todas as unidades (Saúde, Educação, Obras, Cultura, Turismo, etc.) e serviços públicos municipais para atender aos 405 mil habitantes caxienses.
Uma remuneração mensal de R$ 24,5 mil equivale a 70 salários mínimos (o mínimo vale hoje R$ 350). Assim, se aprovarem a duplicação do crédito mensal que atualmente ganham os ocupantes das cadeiras no Congresso Nacional, terão o privilégio de obter, por ano, cerca de 910 salários mínimos. Sabe quando um cidadão comum receberá isso trabalhando honestamente, de sol a sol? Nunca.
É mole ou quer mais? Sim porque a história continua e fica mais séria quando percebo que todo esse dinheiro, teoricamente, me pertence e pertence a você. Portanto, deveria ser usado em benefício do interesse público.
Mas, só nos pertence no pensamento pois, na prática, ele serve a um público cheio de interesses. E assistir passivamente a isso é que me deixa ainda mais indignada! (27.11.2006)
Vestibular e tranqüilidade
Sentado no banco da praça mais movimentada da cidade, livros nas mãos e concentração total. Até os enfeites natalinos afixados por quase todos os espaços do Centro são plenamente ignorados.
É o estudante a folhear na mente conteúdos e mais conteúdos. A apostila ao colo traz Matemática, Português, Geografia, História, Física, Química... Pelo pensamento, cálculos, figuras de linguagem, postura socioeconômica do Brasil em relação a outros países, origens dos povos, medição de forças, tabela periódica... Cabeça de vestibulando nesta época do ano (já que a maioria das faculdades oferece o concurso no verão), é assim: um ponto em ebulição.
Já não bastasse a necessidade de saber e estar a par de todas as possíveis leituras e exercícios que poderão cair nas provas, surge aquela terrível overdose de angústia psicológica. Ela pressiona e judia boa parcela dos estudantes. Uma das doses é decorrente da própria tensão e desejo de ser aprovado para atender ao anseio próprio ou ao anseio da família. Outra dose é a conseqüência das dúvidas sobre a escolha do curso: será que é Direito que quero para meu futuro? E se eu optasse por Letras não seria um profissional mais feliz? Da Medicina, todo mundo fala bem e meus pais ficariam contentes mesmo não tendo dinheiro para pagar, caso eu só consiga passar numa universidade particular. Essas são algumas das interrogações que assombram especialmente os jovens às vésperas do concurso seletivo para ingresso no ensino superior.
Psicólogos e entendidos no assunto dizem que o ideal é fazer a prova com calma, sem estresse e preocupações. Mas diante de um quadro de questionamentos e indecisão como o descrito acima fica complicado manter-se tranqüilo. Mesmo assim, vale tentar, pois a vida é feita de testes. O teste do vestibular, até para quem concorre pela primeira vez, é só mais um a ser enfrentado. Por isso, a todos os jovens e adultos aspirantes aos vestibulares do final do ano ou início de 2007, muita tranqüilidade, sucesso nas provas e sucesso na opção profissional.(11/12/2006)
É o estudante a folhear na mente conteúdos e mais conteúdos. A apostila ao colo traz Matemática, Português, Geografia, História, Física, Química... Pelo pensamento, cálculos, figuras de linguagem, postura socioeconômica do Brasil em relação a outros países, origens dos povos, medição de forças, tabela periódica... Cabeça de vestibulando nesta época do ano (já que a maioria das faculdades oferece o concurso no verão), é assim: um ponto em ebulição.
Já não bastasse a necessidade de saber e estar a par de todas as possíveis leituras e exercícios que poderão cair nas provas, surge aquela terrível overdose de angústia psicológica. Ela pressiona e judia boa parcela dos estudantes. Uma das doses é decorrente da própria tensão e desejo de ser aprovado para atender ao anseio próprio ou ao anseio da família. Outra dose é a conseqüência das dúvidas sobre a escolha do curso: será que é Direito que quero para meu futuro? E se eu optasse por Letras não seria um profissional mais feliz? Da Medicina, todo mundo fala bem e meus pais ficariam contentes mesmo não tendo dinheiro para pagar, caso eu só consiga passar numa universidade particular. Essas são algumas das interrogações que assombram especialmente os jovens às vésperas do concurso seletivo para ingresso no ensino superior.
Psicólogos e entendidos no assunto dizem que o ideal é fazer a prova com calma, sem estresse e preocupações. Mas diante de um quadro de questionamentos e indecisão como o descrito acima fica complicado manter-se tranqüilo. Mesmo assim, vale tentar, pois a vida é feita de testes. O teste do vestibular, até para quem concorre pela primeira vez, é só mais um a ser enfrentado. Por isso, a todos os jovens e adultos aspirantes aos vestibulares do final do ano ou início de 2007, muita tranqüilidade, sucesso nas provas e sucesso na opção profissional.(11/12/2006)
Deputados, que solidariedade, em?
Ao longo de meus 27 anos, mais precisamente na última década, tenho estudado muito para desempenhar minha função com competência e também para adquirir uma estrutura mínima de vida (pagamento do aluguel e assegurar os custos da alimentação, das necessidades médicas e do lazer básico). A cada Natal, como a maioria dos brasileiros, rezo e agradeço a Deus pela saúde, pela família e amigos, pelas pequenas conquistas financeiras. Sim, porque guardar R$ 100 de reserva todo mês não é tão fácil quanto parece.
No Natal deste ano, entretanto, minha oração envolverá solidariedade a um grupo especial de pessoas: os integrantes do Congresso Nacional que se presentearam com um aumento de 90,7% nos próprios salários. Há tempo eu vinha observando a 'miserável' remuneração dos parlamentares e senadores. Sentia pena ao imaginar a dificuldade deles sobreviverem com R$ 12,8 mil e R$ 12,7 mil mensais, respectivamente. Você, leitor, também já deve ter sentido uma comiseração no peito ao tentar visualizar o sacrifício dos deputados e representantes do Senado para sustentarem a família.
É claro que estou sendo irônica. Afinal, quando penso nesses salários exorbitantes só sinto pena de mim e de quem habilmente consegue manter-se com um mínimo de R$ 350 ou próximo desse valor. Neste Natal, então, farei uma prece e um agradecimento especial aos congressistas (exceto aos que se posicionaram contra, lógico) pela generosidade para com os moradores da nação. Nunca imaginei que fosse tão fácil duplicar um salário, já que, a partir de 2007, os 513 deputados e 81 senadores ganharão 24,5 mil por mês, sem contar a avalanche de outros privilégios em vigor. Nunca imaginei que fosse tão simples utilizar à toa o dinheiro da população. Será que os brasileiros são merecedores desse presente natalino? Obrigada por tamanha gentileza, senhores congressistas. Obrigada mesmo, de coração! Na minha modesta opinião, vocês nem mereceriam o repasse inflacionário. Como brasileira autêntica, me decepciono, porém não desisto nunca, nem perco a fé. Minha esperança é de que, se não reverterem essa decisão na Justiça ou por meio da mobilização popular, pelo menos, os novos deputados federais gaúchos dêem um bom exemplo ao Estado e ao país, devolvendo ao povo parte correspondente ao aumento da remuneração. Assim, talvez, o Natal ocorra realmente, o ano de 2007 transcorra mais feliz e justo, e eu tenha menos dó de mim e de quem ainda consegue bancar o sustento familiar com pífios R$ 350 mensais. (18/12/2006)
No Natal deste ano, entretanto, minha oração envolverá solidariedade a um grupo especial de pessoas: os integrantes do Congresso Nacional que se presentearam com um aumento de 90,7% nos próprios salários. Há tempo eu vinha observando a 'miserável' remuneração dos parlamentares e senadores. Sentia pena ao imaginar a dificuldade deles sobreviverem com R$ 12,8 mil e R$ 12,7 mil mensais, respectivamente. Você, leitor, também já deve ter sentido uma comiseração no peito ao tentar visualizar o sacrifício dos deputados e representantes do Senado para sustentarem a família.
É claro que estou sendo irônica. Afinal, quando penso nesses salários exorbitantes só sinto pena de mim e de quem habilmente consegue manter-se com um mínimo de R$ 350 ou próximo desse valor. Neste Natal, então, farei uma prece e um agradecimento especial aos congressistas (exceto aos que se posicionaram contra, lógico) pela generosidade para com os moradores da nação. Nunca imaginei que fosse tão fácil duplicar um salário, já que, a partir de 2007, os 513 deputados e 81 senadores ganharão 24,5 mil por mês, sem contar a avalanche de outros privilégios em vigor. Nunca imaginei que fosse tão simples utilizar à toa o dinheiro da população. Será que os brasileiros são merecedores desse presente natalino? Obrigada por tamanha gentileza, senhores congressistas. Obrigada mesmo, de coração! Na minha modesta opinião, vocês nem mereceriam o repasse inflacionário. Como brasileira autêntica, me decepciono, porém não desisto nunca, nem perco a fé. Minha esperança é de que, se não reverterem essa decisão na Justiça ou por meio da mobilização popular, pelo menos, os novos deputados federais gaúchos dêem um bom exemplo ao Estado e ao país, devolvendo ao povo parte correspondente ao aumento da remuneração. Assim, talvez, o Natal ocorra realmente, o ano de 2007 transcorra mais feliz e justo, e eu tenha menos dó de mim e de quem ainda consegue bancar o sustento familiar com pífios R$ 350 mensais. (18/12/2006)
Imagens que se eternizam
Pare por alguns instantes. Deixe-se levar pelas memórias. São muitas, eu sei. Mas selecione aquelas que, mesmo depois de vários anos, ainda lhe emocionam. Podem ser alegres ou tristes, você é quem decide. Sinta seu estado de espírito hoje e busque as que julgar mais convenientes. Eu, por exemplo, me comovo com duas cenas envolvendo minha família.
Numa delas, meu pai-herói chorou de tristeza. Eu devia ter uns 12 anos quando ele viu as economias da família desaparecerem em segundos por causa de um incidente que ocorreu na pequena empresa que possuía. Meu pai abriu a porta de casa, se ajoelhou no chão e anunciou que estávamos quase falidos. Puxa, eu e minha mãe (o mano ainda era bebê) não conseguimos nos conter. Nossas lágrimas caíram por causa do episódio inesperado, mas caíram com mais intensidade por causa do gesto de meu pai, que se encontra congelado até hoje no meu baú de lembranças.
A outra cena inesquecível da minha vida deve ser a de diversas pessoas e talvez coincida com a sua. Ela faz referência à minha formatura, em 13 de janeiro de 2001. A galera decidiu fazer uma solenidade ao ar livre, no Campus 8 da Universidade de Caxias do Sul. Pôr-do-sol perfeito, tochas de fogo rodeando o palco, formandos e público nos devidos lugares. Um espetáculo só, chiquérrimo! De repente, ouço me chamarem para apanhar o diploma. Entre sorrisos e lágrimas, estava eu lá recebendo das mãos do pró-reitor a certificação de que poderia exercer essa linda profissão de jornalista. Por surpresa, em meio à platéia, pai, mãe, irmão, avós, tios, primos e amigos, vindos de Entre Rios do sul exclusivamente para a cerimônia, ergueram uma faixa gigante e cheia de elogios e incentivos. A emoção foi inevitável. Soluços e soluços de felicidade. Eis mais uma cena simples, mas que se eternizou em minha memória. Que coisa gostosa revivê-la!
E você aí? Já resgatou do arquivo de lembranças as que mais lhe encantaram e ainda encantam? Não é difícil. Às vezes, faz um bem danado recuperá-las. Experimente!(20/11/2006)
Numa delas, meu pai-herói chorou de tristeza. Eu devia ter uns 12 anos quando ele viu as economias da família desaparecerem em segundos por causa de um incidente que ocorreu na pequena empresa que possuía. Meu pai abriu a porta de casa, se ajoelhou no chão e anunciou que estávamos quase falidos. Puxa, eu e minha mãe (o mano ainda era bebê) não conseguimos nos conter. Nossas lágrimas caíram por causa do episódio inesperado, mas caíram com mais intensidade por causa do gesto de meu pai, que se encontra congelado até hoje no meu baú de lembranças.
A outra cena inesquecível da minha vida deve ser a de diversas pessoas e talvez coincida com a sua. Ela faz referência à minha formatura, em 13 de janeiro de 2001. A galera decidiu fazer uma solenidade ao ar livre, no Campus 8 da Universidade de Caxias do Sul. Pôr-do-sol perfeito, tochas de fogo rodeando o palco, formandos e público nos devidos lugares. Um espetáculo só, chiquérrimo! De repente, ouço me chamarem para apanhar o diploma. Entre sorrisos e lágrimas, estava eu lá recebendo das mãos do pró-reitor a certificação de que poderia exercer essa linda profissão de jornalista. Por surpresa, em meio à platéia, pai, mãe, irmão, avós, tios, primos e amigos, vindos de Entre Rios do sul exclusivamente para a cerimônia, ergueram uma faixa gigante e cheia de elogios e incentivos. A emoção foi inevitável. Soluços e soluços de felicidade. Eis mais uma cena simples, mas que se eternizou em minha memória. Que coisa gostosa revivê-la!
E você aí? Já resgatou do arquivo de lembranças as que mais lhe encantaram e ainda encantam? Não é difícil. Às vezes, faz um bem danado recuperá-las. Experimente!(20/11/2006)
Está no mapa
Alguém já conhece ou ouviu falar na cidade de Entre Rios do Sul? Se um sim despontar em seu pensamento, maravilha! Para quem não sabe, é a minha cidade. Onde fica? Alto Uruguai. Sim, região Norte do Rio Grande do Sul. Lá, onde o cultivo da soja, do feijão, do milho e da erva-mate prevalece e responde pela subsistência da maior parte das comunidades do interior. Ah, antes que eu esqueça, a suino e a avecultura também ajudam a reforçar os ganhos dos agricultores e pecuaristas. O espaço que distancia a "Pérola das Colônias" da "Capital Nacional da Motonáutica" beira os 400 quilômetros. Longe? Não muito. São apenas sete horas e trinta minutos de viagem de ônibus Unesul - o único que faz a linha. Isso se você pegar o que pára em Três Palmeiras. Caso você prefira ir por Erechim, terá de ficar aguardando de duas ou três horas na rodoviária para, depois, pegar um outro ônibus (é da empresa Laux) e então chegar em Entre Rios do Sul. De carro é mais fácil. Leva umas cinco horas de viagem. Mas o esforço vale a pena, pois a minha pequena cidade é cheia de calmaria e de belezas naturais. Dê uma passadinha lá, quando puder, é claro!!!
Celebrar você
Celebrar convida para o louvor. É palavra que salta do dicionário com exuberância. É verbo transitivo direto que pede um complemento de alegria, um brinde, que pede sua presença aqui e agora.
Quero, hoje, celebrar você. Nunca quis tanto...
O padre celebra a missa e a Deus, os jogadores e torcedores do Inter, o campeonato mundial de futebol, título que o Grêmio já comemora há alguns anos. Os pais celebram as conquistas dos filhos: o primeiro dente perdido, o primeiro passinho, a primeira apresentação artística na escola, o primeiro vestibular, o primeiro emprego...
Os filhos comemoram a felicidade dos pais. O casal de noivos, o início de uma vida a dois. A professora exalta as descobertas do aluno que já consegue rabiscar as letras do alfabeto.
Celebrar faz bem ao coração de quem felicita e de quem recebe as felicitações; de quem agradece sem pedir e de quem obtém a graça solicitada. A criança festeja com os amigos do bairro o presente recebido do Papai-Noel. O adulto celebra a formatura universitária, o carro novo, a casa própria, os planos futuros. As famílias celebram o nascimento do menino Jesus. Os reis magos também. É um novo período que surge, é uma outra fase que nasce ou renasce.
É tempo de Natal é tempo de Ano-novo. Quero, hoje, celebrar você. Nunca quis tanto...
Há quem exalte o silêncio, enquanto outros preferem agitação. Uma reza interior é um jeito de celebrar, uma música em volume alto é outro jeito de celebrar. O doente exulta o órgão ou o sangue recebido solidariamente de um doador. Os turistas fazem sua solenidade à beira-mar e os bombeiros comemoram a vida salva. Os comerciantes enaltecem o acréscimo nas vendas e os empresários, o aumento nos pedidos. Os trabalhadores celebram a vinda do 13° salário, das férias, dos prêmios-produção, das cestas com panetones, perus, champanhas e chocolates.
É tempo de Natal, é tempo de Ano-novo, é tempo de louvar, revisar e definir sonhos. Por isso, quero, hoje, celebrar e sonhar com você. Nunca quis tanto...(20/12/2005)
Quero, hoje, celebrar você. Nunca quis tanto...
O padre celebra a missa e a Deus, os jogadores e torcedores do Inter, o campeonato mundial de futebol, título que o Grêmio já comemora há alguns anos. Os pais celebram as conquistas dos filhos: o primeiro dente perdido, o primeiro passinho, a primeira apresentação artística na escola, o primeiro vestibular, o primeiro emprego...
Os filhos comemoram a felicidade dos pais. O casal de noivos, o início de uma vida a dois. A professora exalta as descobertas do aluno que já consegue rabiscar as letras do alfabeto.
Celebrar faz bem ao coração de quem felicita e de quem recebe as felicitações; de quem agradece sem pedir e de quem obtém a graça solicitada. A criança festeja com os amigos do bairro o presente recebido do Papai-Noel. O adulto celebra a formatura universitária, o carro novo, a casa própria, os planos futuros. As famílias celebram o nascimento do menino Jesus. Os reis magos também. É um novo período que surge, é uma outra fase que nasce ou renasce.
É tempo de Natal é tempo de Ano-novo. Quero, hoje, celebrar você. Nunca quis tanto...
Há quem exalte o silêncio, enquanto outros preferem agitação. Uma reza interior é um jeito de celebrar, uma música em volume alto é outro jeito de celebrar. O doente exulta o órgão ou o sangue recebido solidariamente de um doador. Os turistas fazem sua solenidade à beira-mar e os bombeiros comemoram a vida salva. Os comerciantes enaltecem o acréscimo nas vendas e os empresários, o aumento nos pedidos. Os trabalhadores celebram a vinda do 13° salário, das férias, dos prêmios-produção, das cestas com panetones, perus, champanhas e chocolates.
É tempo de Natal, é tempo de Ano-novo, é tempo de louvar, revisar e definir sonhos. Por isso, quero, hoje, celebrar e sonhar com você. Nunca quis tanto...(20/12/2005)
Que cara é essa, Brasil?
"Brasil, mostra tua cara", pediu Cazuza em uma de suas memoráveis canções.
Mas, qual é a verdadeira cor da cara de nosso país hoje? Será ainda verde-amarela?
Será preta? Será branca? Ou será roxa?
Não sabemos ao certo. Nossos políticos têm dado um jeito de pintá-la da forma que bem entendem.. A população insiste nas cores da bandeira nacional, mas certos parlamentares e dirigentes escolhem tons mais fúnebres. E não se contentam em minimizar o colorido do país, precisam enfeitá-lo, descaracterizá-lo.
"Políticos, mostrem tuas caras", pede hoje o povo brasileiro.
Boa parte deles, no entanto, tem preferido escondê-las por trás de mensalões, caixas 2, benesses pagas com o dinheiro público.
A população, cheia de esperança, solicita aos governantes apenas dignidade e respeito às suas cores originais. Reivindica o cumprimento dos seus direitos (à saúde, à habitação, à educação, ao lazer), ou seja, do que estabelece a lei maior desta nação. Certos políticos, porém, respondem utilizando um sentido inverso. Preferem depositar o dinheiro dos cidadãos em seus próprios bolsos, transporta-lo em suas próprias malas, e, tingi-los de ganância.
A comunidade dá lições de economia e princípios, mesmo no mundo da miséria. Trabalhando um dia todo para receber ao final do mês um salário de R$ 300, o operário, incrivelmente, consegue manter a família. Do outro lado da esquina, certos parlamentares não contentes com a uma remuneração de mais de R$ 12 mil, sem precisar fazer horas extras ou bicos, apenas acionar um sinal eletrônico, conseguem mais R$ 30 mil . Mágica? Não. Falta de ética. E o pior disso tudo é que eles conseguem arranhar e sujar a cara limpa do povo tupiniquim. Mas esse povo é lutador, e não se entrega. Os trabalhadores desta terra nunca precisaram usar máscaras e sempre encontraram um jeito de limpar o rosto, mesmo quando a sujeira não partiu de si. Por isso, os brasileiros hão de conseguir recuperar a verdadeira pintura desta pátria, hão de devolver o verde-amarelo deste país.(17/7/2005)
Mas, qual é a verdadeira cor da cara de nosso país hoje? Será ainda verde-amarela?
Será preta? Será branca? Ou será roxa?
Não sabemos ao certo. Nossos políticos têm dado um jeito de pintá-la da forma que bem entendem.. A população insiste nas cores da bandeira nacional, mas certos parlamentares e dirigentes escolhem tons mais fúnebres. E não se contentam em minimizar o colorido do país, precisam enfeitá-lo, descaracterizá-lo.
"Políticos, mostrem tuas caras", pede hoje o povo brasileiro.
Boa parte deles, no entanto, tem preferido escondê-las por trás de mensalões, caixas 2, benesses pagas com o dinheiro público.
A população, cheia de esperança, solicita aos governantes apenas dignidade e respeito às suas cores originais. Reivindica o cumprimento dos seus direitos (à saúde, à habitação, à educação, ao lazer), ou seja, do que estabelece a lei maior desta nação. Certos políticos, porém, respondem utilizando um sentido inverso. Preferem depositar o dinheiro dos cidadãos em seus próprios bolsos, transporta-lo em suas próprias malas, e, tingi-los de ganância.
A comunidade dá lições de economia e princípios, mesmo no mundo da miséria. Trabalhando um dia todo para receber ao final do mês um salário de R$ 300, o operário, incrivelmente, consegue manter a família. Do outro lado da esquina, certos parlamentares não contentes com a uma remuneração de mais de R$ 12 mil, sem precisar fazer horas extras ou bicos, apenas acionar um sinal eletrônico, conseguem mais R$ 30 mil . Mágica? Não. Falta de ética. E o pior disso tudo é que eles conseguem arranhar e sujar a cara limpa do povo tupiniquim. Mas esse povo é lutador, e não se entrega. Os trabalhadores desta terra nunca precisaram usar máscaras e sempre encontraram um jeito de limpar o rosto, mesmo quando a sujeira não partiu de si. Por isso, os brasileiros hão de conseguir recuperar a verdadeira pintura desta pátria, hão de devolver o verde-amarelo deste país.(17/7/2005)
O encanto de Bruna
Cinco anos, quase seis. O mundo para conhecer e um balde de questionamentos a cada segundo. Encanto de menina, Bruna é um tic-tac ininterrupto. Quer saber, saber mais, sempre mais. Procura extrair das próprias descobertas o aprimoramento necessário para a idade. A conheci neste final de semana e fiquei impressionada com sua capacidade de interagir com os adultos ao mesmo tempo em que administra seu momento criança.
Bruna não se contenta com meias respostas. Como a maioria do público infantil da mesma geração, deseja informações completas e sinceras. Nada de enrolação, por favor! E os olhinhos seguem o eixo da curiosidade. Seguem as patas do King Kong no filme que passa em DVD. Seguem o teclado do celular. Seguem o olhar do paizinho e da maezinha que por vezes lhe censuram por causa das peraltices.
Bruna é linda. Mas o que magnetiza é sua espontaneidade e esperteza. Só numa tarde essa garotinha, que não vê a hora de iniciar a 1ª série em 2007 e adora ouvir contos de fadas, me mostrou um universo bem mais avançado do que até então eu conhecia. Sei, no entanto, que ela não é a única a executar tal proeza. Outros demonstram habilidade semelhante. A infância de hoje brinca com o que a modernidade oferece. E essa modernidade está cheia de mecanismos sedutores. É um desenho animado e desengonçado novo aqui, um mostro ou carrinho eletroeletrônico surpreendente ali, uma boneca que fala, outra que "se veste" como gente grande. E por aí vai o leque quase sem fim das opções postas à vista dos pequenos. O incrível é que não apenas a criançada acaba persuadida, os pais também. Nessa hora, porém, é preciso equilíbrio e controle, um controle que ajude a mostrar aos filhos o lado bom e o lado ruim desses produtos que intensificam o consumo. Bruna já parece ter noção dessa diferença. Apesar da curiosidade aguçada e do desejo permanente de conferir o que o mercado põe à venda, ela ainda consegue se envolver com o imaginário constituído a partir da natureza.
- Pai, você conhece uma floresta? Adorei tanto esse macaquinho. Eu gosto de animais, de todos os animais - revela a menina, abraçada num bichinho de pelúcia.
Tendo na memória o jeitinho cativante de Bruna, quero lembrar que quinta-feira é dia de celebrar a Criança. Torço para que as novas tecnologias, embora importantes principalmente para o despertar da curiosidade, não tire do público infantil um traço que até hoje lhe foi tão marcante: a ingenuidade. Por isso, em vez de ficar em casa com seu filho, aproveite o Dia da Criança para passear e mostrar a ele que há outras brincadeiras gostosas além do computador, do vídeo game e da TV. (9/10/2006)
Bruna não se contenta com meias respostas. Como a maioria do público infantil da mesma geração, deseja informações completas e sinceras. Nada de enrolação, por favor! E os olhinhos seguem o eixo da curiosidade. Seguem as patas do King Kong no filme que passa em DVD. Seguem o teclado do celular. Seguem o olhar do paizinho e da maezinha que por vezes lhe censuram por causa das peraltices.
Bruna é linda. Mas o que magnetiza é sua espontaneidade e esperteza. Só numa tarde essa garotinha, que não vê a hora de iniciar a 1ª série em 2007 e adora ouvir contos de fadas, me mostrou um universo bem mais avançado do que até então eu conhecia. Sei, no entanto, que ela não é a única a executar tal proeza. Outros demonstram habilidade semelhante. A infância de hoje brinca com o que a modernidade oferece. E essa modernidade está cheia de mecanismos sedutores. É um desenho animado e desengonçado novo aqui, um mostro ou carrinho eletroeletrônico surpreendente ali, uma boneca que fala, outra que "se veste" como gente grande. E por aí vai o leque quase sem fim das opções postas à vista dos pequenos. O incrível é que não apenas a criançada acaba persuadida, os pais também. Nessa hora, porém, é preciso equilíbrio e controle, um controle que ajude a mostrar aos filhos o lado bom e o lado ruim desses produtos que intensificam o consumo. Bruna já parece ter noção dessa diferença. Apesar da curiosidade aguçada e do desejo permanente de conferir o que o mercado põe à venda, ela ainda consegue se envolver com o imaginário constituído a partir da natureza.
- Pai, você conhece uma floresta? Adorei tanto esse macaquinho. Eu gosto de animais, de todos os animais - revela a menina, abraçada num bichinho de pelúcia.
Tendo na memória o jeitinho cativante de Bruna, quero lembrar que quinta-feira é dia de celebrar a Criança. Torço para que as novas tecnologias, embora importantes principalmente para o despertar da curiosidade, não tire do público infantil um traço que até hoje lhe foi tão marcante: a ingenuidade. Por isso, em vez de ficar em casa com seu filho, aproveite o Dia da Criança para passear e mostrar a ele que há outras brincadeiras gostosas além do computador, do vídeo game e da TV. (9/10/2006)
Qual é a história de hoje?
Contar histórias e ouvi-las são recursos à disposição de todos. Lógico que certas pessoas apresentam maior habilidade ao executarem essas gostosas tarefas, mas todas de algum jeito sabem reproduzir ou captar o que os olhos vêem ou lêem e o que o coração sente. No bate-papo com os amigos de bar, no chimarrão com a vizinha, no recreio com os colegas de aula, numa festa, no ambiente de trabalho ou em casa com a família sempre rolam diversas conversas, vezes alegres, vezes tristes.
Mas existem narrativas que passam a ser inesquecíveis, como aquelas que os pais repassam aos filhos. Falando nisso, você que é pai ou mãe já reservou minutinhos da agenda de hoje para historiar algo para seu filho ou filha? Senão, corre, que ainda dá tempo. Não lembra de algum conto de fadas (A Bela Adormecida do Bosque, na versão do francês Charles Perrault), de aventura (As Aventuras de Robinson Crusoe, do inglês Daniel Defoe), ou fábula (A cigarra e a formiga, do francês Jean de La Fontaine ou em versões brasileiras como as escritas por Monteiro Lobato e José Paulo Paes)?
Sem problemas: utilize-se de sua própria vida. Afinal, a trajetória das pessoas é cheia de curiosidades. Os seres humanos são como caixinhas de surpresa, quanto você menos espera, alguém recupera algo do passado ou do presente e põe à mostra despertando a atenção e a emoção de quem o ouve ou vê.
Quando os pais "esquecem" de contar histórias ou falar sobre si, sobre o caminho que já percorreram ou suas pretensões, perdem a oportunidade de ampliar o contato e o relacionamento em família. E os filhos, conseqüentemente, ficam sem a chance de adquirir informações e conhecimentos que, no futuro, poderiam render novas histórias a outras gerações.
Portanto, talvez hoje seja um bom dia para vasculhar os armários e selecionar algum clássico ou obra moderna para lê-los aos filhos, esses seres que devotam a você um carinho incondicional. Se preferir, pode aproveitar as belezas e as dificuldades dos episódios que já aconteceram na própria vida para mostrar um pouco de sua história a quem lhe vê, na maioria das vezes, como herói ou heroína.(27/8/2006)
Mas existem narrativas que passam a ser inesquecíveis, como aquelas que os pais repassam aos filhos. Falando nisso, você que é pai ou mãe já reservou minutinhos da agenda de hoje para historiar algo para seu filho ou filha? Senão, corre, que ainda dá tempo. Não lembra de algum conto de fadas (A Bela Adormecida do Bosque, na versão do francês Charles Perrault), de aventura (As Aventuras de Robinson Crusoe, do inglês Daniel Defoe), ou fábula (A cigarra e a formiga, do francês Jean de La Fontaine ou em versões brasileiras como as escritas por Monteiro Lobato e José Paulo Paes)?
Sem problemas: utilize-se de sua própria vida. Afinal, a trajetória das pessoas é cheia de curiosidades. Os seres humanos são como caixinhas de surpresa, quanto você menos espera, alguém recupera algo do passado ou do presente e põe à mostra despertando a atenção e a emoção de quem o ouve ou vê.
Quando os pais "esquecem" de contar histórias ou falar sobre si, sobre o caminho que já percorreram ou suas pretensões, perdem a oportunidade de ampliar o contato e o relacionamento em família. E os filhos, conseqüentemente, ficam sem a chance de adquirir informações e conhecimentos que, no futuro, poderiam render novas histórias a outras gerações.
Portanto, talvez hoje seja um bom dia para vasculhar os armários e selecionar algum clássico ou obra moderna para lê-los aos filhos, esses seres que devotam a você um carinho incondicional. Se preferir, pode aproveitar as belezas e as dificuldades dos episódios que já aconteceram na própria vida para mostrar um pouco de sua história a quem lhe vê, na maioria das vezes, como herói ou heroína.(27/8/2006)
Um passo certo
O corpinho tremia. Faltava-lhe calor. Faltavam-lhe forças. Faltava-lhe alimento. Aquelas mãos pequeninas traziam ossos à mostra. Trezentos e sessenta e cinco dias de vida e apenas seis quilos.
- Será que vai se criar? - questionavam os novos parentes.
- Claro que vai - acreditava fervorosamente o nono.
Nandinha veio de São Paulo. Adotada pelos meus tios Elsa e Machado, trouxe na bagagem para o Sul, um corpo machucado, ferido pelas batidas nas paredes e pelas pontas de cigarro que sua mãe de sangue lhe deixou como marcas... Um corpinho aflito pelas lembranças de um quarto solitário, de hospital.
Trouxe consigo um curto e triste passado, que acabou sendo suplantado pela paixão, solidariedade e carinho do novo lar.
Raquítica e, num primeiro momento, demasiadamente quieta, Nanda foi se acostumando à nova realidade. Ela encantou nossa família, despertando intensa alegria e esperança.
Sobrava-lhe amor. Só precisava mais equilíbrio. Até os primeiros passos saírem direitinhos, levou certo tempo, ou melhor, algumas semanas. Foram vários os lances de pés em falso até ela aprender a andar sozinha.
- Filha, desta vez, você errou o passo, mas não se preocupe - consolava minha tia Elsa, em tom de socorro e fazendo com que a menina não desistisse de tentar novamente.
A mãe adotiva alcançava a mão para que a garotinha sentisse a segurança do mundo que estava começando a conhecer.
- Experimente vir a mim sem medo, minha menina. Se cair, não tem problema. Estarei aqui para segurá-la - tranqüilizava tia Elsa.
O passo número um tornou-se a alegria da vez e gerou a maior festa familiar. Foi a prova de que aquela garotinha de aparência desnutrida caminharia para o mundo. E caminhou. Valeram a pena os passinhos inicialmente errados e os incentivos materno e paterno. Hoje, aos quase 20 anos, Nanda também é chamada de Fê. Minha prima é uma linda moça, e sempre soube que seus pais biológicos não eram os que a criaram. Tê-la conosco, como integrante da família, tornou-se motivo de orgulho. Além disso, ela é o exemplo claro de que a adoção não é um erro. É sim um acerto com sinônimo de felicidade, sentimento percebido por nós desde que ela chegou em nossa casa, desde que nos presenteou com seus primeiros e frágeis passinhos...(23/6/2005)
- Será que vai se criar? - questionavam os novos parentes.
- Claro que vai - acreditava fervorosamente o nono.
Nandinha veio de São Paulo. Adotada pelos meus tios Elsa e Machado, trouxe na bagagem para o Sul, um corpo machucado, ferido pelas batidas nas paredes e pelas pontas de cigarro que sua mãe de sangue lhe deixou como marcas... Um corpinho aflito pelas lembranças de um quarto solitário, de hospital.
Trouxe consigo um curto e triste passado, que acabou sendo suplantado pela paixão, solidariedade e carinho do novo lar.
Raquítica e, num primeiro momento, demasiadamente quieta, Nanda foi se acostumando à nova realidade. Ela encantou nossa família, despertando intensa alegria e esperança.
Sobrava-lhe amor. Só precisava mais equilíbrio. Até os primeiros passos saírem direitinhos, levou certo tempo, ou melhor, algumas semanas. Foram vários os lances de pés em falso até ela aprender a andar sozinha.
- Filha, desta vez, você errou o passo, mas não se preocupe - consolava minha tia Elsa, em tom de socorro e fazendo com que a menina não desistisse de tentar novamente.
A mãe adotiva alcançava a mão para que a garotinha sentisse a segurança do mundo que estava começando a conhecer.
- Experimente vir a mim sem medo, minha menina. Se cair, não tem problema. Estarei aqui para segurá-la - tranqüilizava tia Elsa.
O passo número um tornou-se a alegria da vez e gerou a maior festa familiar. Foi a prova de que aquela garotinha de aparência desnutrida caminharia para o mundo. E caminhou. Valeram a pena os passinhos inicialmente errados e os incentivos materno e paterno. Hoje, aos quase 20 anos, Nanda também é chamada de Fê. Minha prima é uma linda moça, e sempre soube que seus pais biológicos não eram os que a criaram. Tê-la conosco, como integrante da família, tornou-se motivo de orgulho. Além disso, ela é o exemplo claro de que a adoção não é um erro. É sim um acerto com sinônimo de felicidade, sentimento percebido por nós desde que ela chegou em nossa casa, desde que nos presenteou com seus primeiros e frágeis passinhos...(23/6/2005)
Relógio, muy amigo
Tempo que vem e tempo que vai. E se vai aceleradamente. Deveríamos manter uma relação de íntima amizade com o relógio. Assim, talvez, ele pudesse ser mais solidário conosco. Mas tornar-se amicíssimo do tempo nem sempre é possível. Quando ele pede passagem, parece não estar nem aí conosco: passa e pronto. E quando a gente deseja que o ponteiro ande mais devagar, só ouvimos o tic-tac agilizar sua função. Foram apenas cinco segundos de atraso e o ônibus da Visate segue tranqüilo a 20 metros de distância da parada. Droga! Sim, droga mesmo. Agora o negócio é esperar o outro coletivo.
E no sentido inverso o dilema se repete. O calendário aponta para a segunda-feira, mas a vontade é de que chegue logo o sábado. A semana, porém, teima em se arrastar mesmo diante de uma agenda lotada de trabalho e tarefas. Quanto mais o sábado e o domingo são aguardados, mais lentas se transformam as horas. Finalmente vem o final de semana. Que maravilha! É preciso aproveitar cada fração de minuto, porque no sábado e no domingo, quando os encontros em família, de amor ou de amigos ocorrem com mais intensidade, o relógio parece que se irrita e começa a adiantar. No corre-corre contra o tempo, fica difícil degustar profundamente o carinho da mãe, do pai, do vô, da vó... Fica complicado resistir à tentação de virar a noite na festa com os colegas. Mas o difícil mesmo é ter de despedir-se de quem a gente gosta, sabendo que o encontro seguinte vai demorar uma semana, um mês ou até dois. Nesse caso, sobra de consolo a companhia da saudade.
Saudade... Pensando bem, nem tudo está perdido nessa questão do tempo. Como Deus não atribuiu aos humanos a competência de controlar os segundos conforme suas conveniências, resta-nos uma alternativa: fazer de conta. Por que não vivermos esta terça e quarta-feiras como se fossem fim de semana? Inspirados por Vinicius de Moraes, poderíamos tentar, não?
"Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar (...)
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar (...)."
(11/9/2006)
E no sentido inverso o dilema se repete. O calendário aponta para a segunda-feira, mas a vontade é de que chegue logo o sábado. A semana, porém, teima em se arrastar mesmo diante de uma agenda lotada de trabalho e tarefas. Quanto mais o sábado e o domingo são aguardados, mais lentas se transformam as horas. Finalmente vem o final de semana. Que maravilha! É preciso aproveitar cada fração de minuto, porque no sábado e no domingo, quando os encontros em família, de amor ou de amigos ocorrem com mais intensidade, o relógio parece que se irrita e começa a adiantar. No corre-corre contra o tempo, fica difícil degustar profundamente o carinho da mãe, do pai, do vô, da vó... Fica complicado resistir à tentação de virar a noite na festa com os colegas. Mas o difícil mesmo é ter de despedir-se de quem a gente gosta, sabendo que o encontro seguinte vai demorar uma semana, um mês ou até dois. Nesse caso, sobra de consolo a companhia da saudade.
Saudade... Pensando bem, nem tudo está perdido nessa questão do tempo. Como Deus não atribuiu aos humanos a competência de controlar os segundos conforme suas conveniências, resta-nos uma alternativa: fazer de conta. Por que não vivermos esta terça e quarta-feiras como se fossem fim de semana? Inspirados por Vinicius de Moraes, poderíamos tentar, não?
"Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar (...)
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar (...)."
(11/9/2006)
Um pequeno ser paciente
Paciência. Está aí uma palavrinha que eu gosto e admiro... Sei que não sou muito amiga dela (o meu chefe diz que sou demasiadamente ansiosa), mas faço um esforço diário para respeitá-la. Ser paciente nos dias atuais virou coisa rara diante de tanta novidade e rapidez tecnológica. No mundo dos adultos, onde, apesar das evolução da informática, há fila para tudo, até mesmo em restaurante, ser paciente se transformou num verdadeiro teste de equilíbrio. No universo infantil, porém, acredito que ainda é possível curtir os efeitos da paciência, embora as crianças também estejam revelando-se cada vez mais agitadas.
Essa minha crença me faz lembrar de um menino com o qual descobri o valor de controlar os impulsos diante das coisas e das diferentes circunstâncias. Meu irmão Vagner, 10 anos mais jovem que eu, foi quem, lá por volta da segunda metade de 1990, me mostrou as belezas da paciência. Por incrível que pareça, foi uma criança a responsável por me dizer que cada coisa dispõe de um tempo de maturação até mesmo uma travessura.
- Entende ou não entende, mana? - perguntava Vagner, quando eu exigia que ele justificasse rapidamente suas safadezas, coisa que, num primeiro instante, lhe parecia de difícil resposta ou providência.
A expressão "entende ou não entende, mana?", que seguia as explicações do meu irmão, insinuava uma solicitação. Ele pedia para eu dar-lhe um tempo maior, ser mais paciente até ele buscar na memória um argumento plausível e adequado para sua atitude. Um argumento que, logicamente, não lhe encurralasse ainda mais.
Com olhar que só a infância proporciona, ele convencia fácil, deixando-me até menos impaciente. Hoje, Vagner continua bem mais tranqüilo que eu. Mesmo estando na fase da adolescência, onde a curiosidade, as dúvidas e as mudanças são personagens constantes, ele conduz as ações com maior delicadeza, sem irritação. Claro que apresenta seus momentos de impulsividade, mas são raros. O jeito de Vagner encarar a vida me serve de modelo desde que ele era pequeno. E o que me chama atenção nesse processo é que, tradicionalmente, são os irmãos mais velhos que dão exemplo. No meu caso, ocorreu o contrário. Observo, diante disso, que os modelos para nossas vidas não precisam ter idade fixa, nem tamanho. Podem estar próximos ou distantes de nós, ser mais experientes ou imaturos, vir das falas de um grande e ágil mestre ou de um pequeno e tranqüilo ser... (1/7/2005)
Essa minha crença me faz lembrar de um menino com o qual descobri o valor de controlar os impulsos diante das coisas e das diferentes circunstâncias. Meu irmão Vagner, 10 anos mais jovem que eu, foi quem, lá por volta da segunda metade de 1990, me mostrou as belezas da paciência. Por incrível que pareça, foi uma criança a responsável por me dizer que cada coisa dispõe de um tempo de maturação até mesmo uma travessura.
- Entende ou não entende, mana? - perguntava Vagner, quando eu exigia que ele justificasse rapidamente suas safadezas, coisa que, num primeiro instante, lhe parecia de difícil resposta ou providência.
A expressão "entende ou não entende, mana?", que seguia as explicações do meu irmão, insinuava uma solicitação. Ele pedia para eu dar-lhe um tempo maior, ser mais paciente até ele buscar na memória um argumento plausível e adequado para sua atitude. Um argumento que, logicamente, não lhe encurralasse ainda mais.
Com olhar que só a infância proporciona, ele convencia fácil, deixando-me até menos impaciente. Hoje, Vagner continua bem mais tranqüilo que eu. Mesmo estando na fase da adolescência, onde a curiosidade, as dúvidas e as mudanças são personagens constantes, ele conduz as ações com maior delicadeza, sem irritação. Claro que apresenta seus momentos de impulsividade, mas são raros. O jeito de Vagner encarar a vida me serve de modelo desde que ele era pequeno. E o que me chama atenção nesse processo é que, tradicionalmente, são os irmãos mais velhos que dão exemplo. No meu caso, ocorreu o contrário. Observo, diante disso, que os modelos para nossas vidas não precisam ter idade fixa, nem tamanho. Podem estar próximos ou distantes de nós, ser mais experientes ou imaturos, vir das falas de um grande e ágil mestre ou de um pequeno e tranqüilo ser... (1/7/2005)
Meu Loro parceiro
O melhor e mais sábio papagaio do mundo foi batizado de Loro. Um nome um tanto quanto conhecido, não? Mas o Loro do qual falo era singular, era o meu bichinho de estimação. No meu tempo de criança, lá no interior, não havia proibição em ter essa ave por casa - hoje, com o objetivo de coibir o tráfico ilegal e a extinção, só é possível ter um animal silvestre com autorização do Ibama. Falante, querido e amável, o Loro contaminava a residência e os amigos de boa energia.
Tinha uma beleza rara. Penas verdes e bem clarinhas cobriam seu corpo, lhe proporcionando uma aparência majestosa. Penugens vermelhas, brancas, amarelas e cinzas gostosas de tocar revestiam seu peito, acentuando a elegância do bicho. O Loro cantava, o Loro gritava, o Loro tinha uma doçura única. Ele não mordia quem se aproximava para lhe dar carinho, apenas os que apareciam para lhe irritar ou "encher o saco".
Ele adorava o pé de abacateiro que havia no terreno da Dona Maria, nossa vizinha costureira. Vez que outra, o rico (esse era seu segundo nome) escapava da gaiola, sempre cheia de farelos de pão, e não desperdiçava a oportunidade. Voava longe, digo, alto, até o topo do pé de abacate. E ficava por lá... Acho que até aproveitava a tarde e a liberdade para meditar.
Mas, quando a noite começava a surgir, o chamado era inevitável:
- Vania, Vaniaaaa, Vaniaaaaaaaa!!!! Vania, vem pegar o Loro, o seu lorinho. Vem! Vania, vem socorrer.
Diante da histeria carinhosa do "garoto", a Vania não resistia. Subia no abacateiro, apanhava o papagaio, colocando-o no ombro e descia. E era só em meus braços que ele voltava para o aconchego do lar. Era um amigão... Por anos, foi meu psicólogo. Quando eu chegava da escola, era ele o meu compadre de conversa. Ouvia-me falar bem e mal dos colegas, reclamar ou elogiar os professores, chorar por causa do menino que eu gostava e nem havia me dado atenção. Com o Loro eu dividia, ou melhor, compartilhava alegrias, angústias e sofrimentos. E ele ouvia quietinho, fazendo uns tiques de quem estava entendendo tudo o que eu narrava. Quanta saudade sinto do meu ombro-amigo, que partiu para outra vida quando eu tinha uns 12 anos. Morreu vítima de um resfriado, deixando os corações a minha família em frangalhos. Ter um bichinho de estimação é algo fantástico e saber dividir com ele os acontecimentos da vida faz um bem danado. O meu Loro era um fiel companheiro, pena que fugiu da gaiola para nunca mais voltar. (7/7/05)
Tinha uma beleza rara. Penas verdes e bem clarinhas cobriam seu corpo, lhe proporcionando uma aparência majestosa. Penugens vermelhas, brancas, amarelas e cinzas gostosas de tocar revestiam seu peito, acentuando a elegância do bicho. O Loro cantava, o Loro gritava, o Loro tinha uma doçura única. Ele não mordia quem se aproximava para lhe dar carinho, apenas os que apareciam para lhe irritar ou "encher o saco".
Ele adorava o pé de abacateiro que havia no terreno da Dona Maria, nossa vizinha costureira. Vez que outra, o rico (esse era seu segundo nome) escapava da gaiola, sempre cheia de farelos de pão, e não desperdiçava a oportunidade. Voava longe, digo, alto, até o topo do pé de abacate. E ficava por lá... Acho que até aproveitava a tarde e a liberdade para meditar.
Mas, quando a noite começava a surgir, o chamado era inevitável:
- Vania, Vaniaaaa, Vaniaaaaaaaa!!!! Vania, vem pegar o Loro, o seu lorinho. Vem! Vania, vem socorrer.
Diante da histeria carinhosa do "garoto", a Vania não resistia. Subia no abacateiro, apanhava o papagaio, colocando-o no ombro e descia. E era só em meus braços que ele voltava para o aconchego do lar. Era um amigão... Por anos, foi meu psicólogo. Quando eu chegava da escola, era ele o meu compadre de conversa. Ouvia-me falar bem e mal dos colegas, reclamar ou elogiar os professores, chorar por causa do menino que eu gostava e nem havia me dado atenção. Com o Loro eu dividia, ou melhor, compartilhava alegrias, angústias e sofrimentos. E ele ouvia quietinho, fazendo uns tiques de quem estava entendendo tudo o que eu narrava. Quanta saudade sinto do meu ombro-amigo, que partiu para outra vida quando eu tinha uns 12 anos. Morreu vítima de um resfriado, deixando os corações a minha família em frangalhos. Ter um bichinho de estimação é algo fantástico e saber dividir com ele os acontecimentos da vida faz um bem danado. O meu Loro era um fiel companheiro, pena que fugiu da gaiola para nunca mais voltar. (7/7/05)
A moça do chambre
Nos pés, chinelos de lã, confortáveis, daqueles que a gente só usa em casa. No corpo, um chambre (roupão) de cetim parecia amenizar o frio de 8 Cº que o termômetro colocava à mostra. Do mesmo jeito, à mostra, estavam suas pernas, dos joelhos para baixo. Os cabelos envoltos num coque deixavam bela a face daquela mulher. Ficaria ela ainda mais bela se não fosse a expressão dos olhos. Tristeza, talvez... Aflição, quem sabe... Dor, bem provável...
A jovem de cerca de 25 anos, que tinha em suas mãos um pano, desses panos que mais parecem um grande lenço, catalisava atenções. Se não fosse o lugar onde estava, talvez nem seria notada. Mas, vestida de tal forma, se fez presente numa das paradas de ônibus da área central de Caxias. Transparecia uma sutil impaciência, nada que pudesse causar surpresa, exceto a roupa, aquela rouba aparentemente inadequada ao momento.
Não tinha quem não a percebesse. No rosto do público passante que a observava, a explícita curiosidade: o que faz uma moça com tais vestes em plena tarde caxiense e em meio à população?
Resistente, a jovem não dava bola aos olhares que lhe vinham de todos os cantos. Pois sua inquietação parecia vir do interior... E eu, incluída entre os observadores, pensei: o que teria ocorrido com ela? Será que ela está precisando de auxílio? Não seria conveniente eu questioná-la? E se ela não gostar? Mas, e se ela estiver mesmo necessitando de ajuda...
Desisti, não tive coragem, assim como várias daquelas pessoas que a viram não tiveram coragem de lhe fazer uma simples pergunta ou de lhe estender a mão...
Subi no ônibus, paguei a passagem e sentei no banco. A moça ficou lá, na fila da parada do ônibus, com o chinelo de lã nos pés, os cabelos em coque e com o chambre enrolado ao corpo. (31/7/06)
A jovem de cerca de 25 anos, que tinha em suas mãos um pano, desses panos que mais parecem um grande lenço, catalisava atenções. Se não fosse o lugar onde estava, talvez nem seria notada. Mas, vestida de tal forma, se fez presente numa das paradas de ônibus da área central de Caxias. Transparecia uma sutil impaciência, nada que pudesse causar surpresa, exceto a roupa, aquela rouba aparentemente inadequada ao momento.
Não tinha quem não a percebesse. No rosto do público passante que a observava, a explícita curiosidade: o que faz uma moça com tais vestes em plena tarde caxiense e em meio à população?
Resistente, a jovem não dava bola aos olhares que lhe vinham de todos os cantos. Pois sua inquietação parecia vir do interior... E eu, incluída entre os observadores, pensei: o que teria ocorrido com ela? Será que ela está precisando de auxílio? Não seria conveniente eu questioná-la? E se ela não gostar? Mas, e se ela estiver mesmo necessitando de ajuda...
Desisti, não tive coragem, assim como várias daquelas pessoas que a viram não tiveram coragem de lhe fazer uma simples pergunta ou de lhe estender a mão...
Subi no ônibus, paguei a passagem e sentei no banco. A moça ficou lá, na fila da parada do ônibus, com o chinelo de lã nos pés, os cabelos em coque e com o chambre enrolado ao corpo. (31/7/06)
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