sábado, 10 de maio de 2008

Importância sem tradução

A dor no peito é intensa. Uma agonia que só as lágrimas conseguem acalmar. Quando os pais moram longe, as visitas, em muitos casos, são raras e a hora do tchau vira suplício. Um replay da época da infância passa pela cabeça. O abraço do pai reforça a emoção. O beijo da mãe acelera os batimentos cardíacos. E o ombro do irmão veste-se de aconchego. Além da carga de carinho da família, há a dos demais parentes, vizinhos e amigos.
Um final de semana de passeio na casa de origem faz revirar as gavetas do tempo: revistar o passado, refletir o presente. Os álbuns antigos ajudam nessas tarefas. O nono que já se foi, o primo antes bebê hoje está adolescente. Na foto das bodas de ouro dos avôs, o retrato de quase toda a família. Aos poucos, velhos componentes vão desaparecendo e novos vão chegando. É o ciclo da existência.
Um final de semana de volta às raízes faz sentir o peso da saudade e o quanto ela interfere em nossas vidas. O cheirinho e o gosto do pudim feito pela mão materna. O churrasco que só as mãos paternas têm habilidade de preparar tão bem. A promessa de que da próxima vez não demorarei tantos meses para voltar persiste. A vontade de correr aos braços da mãe ou ao afago do pai e ali permanecer tenteia.
Mas é hora de colocar a bagagem no carro ou no ônibus e partir. Nesse instante, vem à lembrança o questionamento de Manoel de Barros no poema Sobre Importâncias.
"(...) Agora, hoje, eu vi um sabiá pousando na Cordilheira dos Andes. Achei o Sabiá mais importante do que a Cordilheira dos Andes. O pessoal falou: seu olhar é distorcido. Eu, por certo, não saberei medir a importância das coisas: alguém sabe?"
Vendo o rosto de meus familiares, percebi que não sei avaliar direito a importância das coisas. Diante deles, meu coração decretou: fica mais um pouco. Minha razão e obrigações, no entanto, disseram com ar de realismo: é preciso ir. De mala escorada aos pés, acenei. Com o coração partido e lágrimas resistindo a cair, segui viagem. Descobri, então, que há importâncias que as palavras ainda não conseguem traduzir. (16/10/2006)

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