Nos pés, chinelos de lã, confortáveis, daqueles que a gente só usa em casa. No corpo, um chambre (roupão) de cetim parecia amenizar o frio de 8 Cº que o termômetro colocava à mostra. Do mesmo jeito, à mostra, estavam suas pernas, dos joelhos para baixo. Os cabelos envoltos num coque deixavam bela a face daquela mulher. Ficaria ela ainda mais bela se não fosse a expressão dos olhos. Tristeza, talvez... Aflição, quem sabe... Dor, bem provável...
A jovem de cerca de 25 anos, que tinha em suas mãos um pano, desses panos que mais parecem um grande lenço, catalisava atenções. Se não fosse o lugar onde estava, talvez nem seria notada. Mas, vestida de tal forma, se fez presente numa das paradas de ônibus da área central de Caxias. Transparecia uma sutil impaciência, nada que pudesse causar surpresa, exceto a roupa, aquela rouba aparentemente inadequada ao momento.
Não tinha quem não a percebesse. No rosto do público passante que a observava, a explícita curiosidade: o que faz uma moça com tais vestes em plena tarde caxiense e em meio à população?
Resistente, a jovem não dava bola aos olhares que lhe vinham de todos os cantos. Pois sua inquietação parecia vir do interior... E eu, incluída entre os observadores, pensei: o que teria ocorrido com ela? Será que ela está precisando de auxílio? Não seria conveniente eu questioná-la? E se ela não gostar? Mas, e se ela estiver mesmo necessitando de ajuda...
Desisti, não tive coragem, assim como várias daquelas pessoas que a viram não tiveram coragem de lhe fazer uma simples pergunta ou de lhe estender a mão...
Subi no ônibus, paguei a passagem e sentei no banco. A moça ficou lá, na fila da parada do ônibus, com o chinelo de lã nos pés, os cabelos em coque e com o chambre enrolado ao corpo. (31/7/06)
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