sábado, 10 de maio de 2008

Um passo certo

O corpinho tremia. Faltava-lhe calor. Faltavam-lhe forças. Faltava-lhe alimento. Aquelas mãos pequeninas traziam ossos à mostra. Trezentos e sessenta e cinco dias de vida e apenas seis quilos.
- Será que vai se criar? - questionavam os novos parentes.
- Claro que vai - acreditava fervorosamente o nono.
Nandinha veio de São Paulo. Adotada pelos meus tios Elsa e Machado, trouxe na bagagem para o Sul, um corpo machucado, ferido pelas batidas nas paredes e pelas pontas de cigarro que sua mãe de sangue lhe deixou como marcas... Um corpinho aflito pelas lembranças de um quarto solitário, de hospital.
Trouxe consigo um curto e triste passado, que acabou sendo suplantado pela paixão, solidariedade e carinho do novo lar.
Raquítica e, num primeiro momento, demasiadamente quieta, Nanda foi se acostumando à nova realidade. Ela encantou nossa família, despertando intensa alegria e esperança.
Sobrava-lhe amor. Só precisava mais equilíbrio. Até os primeiros passos saírem direitinhos, levou certo tempo, ou melhor, algumas semanas. Foram vários os lances de pés em falso até ela aprender a andar sozinha.
- Filha, desta vez, você errou o passo, mas não se preocupe - consolava minha tia Elsa, em tom de socorro e fazendo com que a menina não desistisse de tentar novamente.
A mãe adotiva alcançava a mão para que a garotinha sentisse a segurança do mundo que estava começando a conhecer.
- Experimente vir a mim sem medo, minha menina. Se cair, não tem problema. Estarei aqui para segurá-la - tranqüilizava tia Elsa.
O passo número um tornou-se a alegria da vez e gerou a maior festa familiar. Foi a prova de que aquela garotinha de aparência desnutrida caminharia para o mundo. E caminhou. Valeram a pena os passinhos inicialmente errados e os incentivos materno e paterno. Hoje, aos quase 20 anos, Nanda também é chamada de Fê. Minha prima é uma linda moça, e sempre soube que seus pais biológicos não eram os que a criaram. Tê-la conosco, como integrante da família, tornou-se motivo de orgulho. Além disso, ela é o exemplo claro de que a adoção não é um erro. É sim um acerto com sinônimo de felicidade, sentimento percebido por nós desde que ela chegou em nossa casa, desde que nos presenteou com seus primeiros e frágeis passinhos...(23/6/2005)

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